Porsche 550-1500 RS Spyder - 1953 (Maisto)Decorria o ano de 1953 quando no Salão de Paris a Porsche decide apresentar aquele que seria o seu primeiro automóvel orientado especificamente para a competição, o 550 RS Spyder. As linhas eram simples e claramente com a aerodinâmica em mente (uma derivação do design do 356 mas muito mais baixo e flúido, com os ocupantes ao centro do carro detrás dum minúsculo pára-brisas), que embora pouco mais que uma reinterpretação por Erwin Komenda do tema do 356, escondiam debaixo da carroçaria de alumínio um veículo inteiramente diferente: montado no leve chassis de travessas e longarinas em aço encontrava-se um avançadíssimo motor boxer de 4 cilindros montado centralmente e não na traseira.

A intenção da Porsche na altura tinha tanto de ambiciosa como de realista: criar um desportivo que permitisse ser inscrito na classe "Até 1500cc" e bater-se mesmo frente a modelos de classes superiores, com modelos de concepção menos inovadora e avançada. Assim, apostando no baixo peso e dimensões (o carro era tão baixo que o antigo piloto germânico de F1 Hans Herrmann o conduziu por baixo de cancelas fechadas na travessia duma passagem-de-nível ferroviária durante a corrida das Mille Miglia de 1954!) e avançada tecnologia na mecânica de forma a estraír o máximo das capacidades dos 1500cc disponíveis, a Porsche viria a tornar-se não só a vencedora indiscutível na sua classe como até a alcançar a primeira victória absoluta numa corrida com um automóvel de motor central (a Targa Florio de 1956).

Como já disse, o verdadeiro segredo encontrava-se debaixo da fina carroçaria em alumínio: para impulsionar os 550kg que o Porsche acusava na balança (daí o nome), estava uma pequena maravilha da técnica. O pequeno boxer de 4 cilindros e 1498cc desenhado por Ernst Führmann, designado de Typ 547, tinha muito mais escondido do que deixava perceber à primeira vista. Sendo de arquitectura base semelhante à unidade que equipava o 356 (e era essencialmente derivada do Volkswagen Typ 1), era todo ele uma unidade diferente: antes do mais, o bloco estava montado à frente do diferencial e não atrás, permitindo-o ser montado em posição central e melhorar a distribuição de massas; depois, de forma melhorar a eficiência da distribuição, o comando de válvulas usava um complexo sistema de engrenagens cónicas e árvores de cames de forma a oferecer uma verdadeira configuração de dupla árvore de cames à cabeça, permitindo a montagem de pistões côncavos e uma melhor forma da câmara de combustão; a ignição era dupla por cilindro com duplo distribuidor na árvore de cames de admissão com circuitos separados controláveis independentemente a partir do habitáculo; a lubrificação utilizava um sistema de cárter seco, com depósito do óleo montado à frente da cava da roda traseira direita (permitindo a obtenção dum bloco mais pequeno e leve, reduzindo o centro de gravidade do conjunto e permitindo a lubrificação mesmo em condições de acelerações laterais elevadas); por fim, a refrigeração era feita a ar através duma ventoínha de dupla face montada ao centro do bloco com uma cobertura elegante, conferindo-lhe a alcunha de "
Schubladenmotor" ou "motor de gaveta".

O motor era um pesadelo para os mecânicos, que muitas vezes o consideravam demasiado complexo, mas deu os seus frutos: alimentado por dois carburadores Solex PJJ de duplo corpo, o bloco desenvolvia 110cv às 6200rpm que, através da caixa manual de 4 velocidades, permitiam ao levíssimo 550 RS Spyder alcançar os 220km/h! Não admira que logo em 1954 tenha vencido a sua classe na Carrera Panamericana (daí em diante todos os modelos de motor boxer seriam chamados de "Carrera").

No entanto o mais famoso de todos os 550 RS Spyder seria um que nunca viria a correr: a 30 de Setembro de 1955, o famoso actor James Dean e o seu mecânico Rolf Wütherich arrancaram da Competition Motor em Los Angeles ao volante do 550 chassis número 550-0055 de alcunha "Little Bastard" em direcção a Salinas onde iria correr no dia seguinte. Puxando bem pela mecânica do Porsche (inclusive, foram multados por excesso de velocidade durante a viagem) e após uma paragem a meio da tarde, dirigiram-se à subida das Montanhas de Diablo Range. Foi na intersecção entre as Estradas 41 e 466 que se defrontaram com Donald Turnupseed, estudante no Instituto Politécnico da California, e o seu Ford Custom Tudor Coupe que, sem os ver, tentou virar à esquerda. O embate foi inevitável e James Dean ficou esmagado nos destroços atrás do volante, morrendo aos 24 anos a caminho do Hospital Paso Robles War Memorial devido ao pescoço partido. O mecânico foi cuspido do carro e escapou com o queixo e um perna partidos e o condutor do Ford apenas sofreu um corte na testa e várias escoriações sem sequer ter requerido tratamento hospitalar nem ter sido considerado culpado do acidente (o 550 era prateado e no pico da tarde practicamente impossível de ver sob o sol da California). A partir daí um série de infortúnios e acasos infelizes com os futuros proprietários do carro ou partes dele deram origem à lenda de que o carro estaria amaldiçoado até este desaprecer de vez sem se saber qual o seu actual paradeiro.

Três anos transactos da apresentação original do 550 RS Spyder, a Porsche apresenta uma evolução do modelo, o 550A RS Spyder. Com alguns elementos da carroçaria revistos (os mais notórios o roll-bar de protecção do piloto e as aberturas laterais de alimentação), utilizava um novo chassis tubular que conferia maior rigidez ao conjunto e um motor revisto que agora debitava 135cv. Assim viria a dar à Porsche uma das primeiras e mais importantes victórias na competição automóvel: com o piloto italiano Umberto Maglioli atrás do volante do revisto 550A RS Spyder, a Porsche vencia a então mais longa e difícil corrida de estrada do Mundo, a Targa Florio, que decorre na ilha da Sicília. Cruzando a meta quase 15 minutos à frente do segundo classificado e a uma média de 90,9km/h, o modelo que havia estreado apenas 11 dias antes da Targa Florio na corrida de 1.000km de Nürburgring com uma victória na classe, era suposto servir de teste em estrada, numa corrida que ao contrário de muitas outras não tinha as estradas fechadas, perigosamente tendo que lidar com condições de trânsito reais. A corrida de 720km foi cumprida com apenas um piloto em 7h54.52 e apenas parou nas boxes para reabastecimento.

O 550 viria a ser o percussor de toda uma linhagem de bem-sucedidos modelos de competição como os RS 60 ou RS 61, o 718 (mais conhecido como RSK) e o "ascendente espiritual" do
best seller Boxster; aliás, em 2004 sairía um edição comemorativa do 50º aniversário do 550 com o "Boxster S 550 Spyder".

A miniatura que vos apresento representa o 550 RS Spyder de 1953 (segundo informação do lord_lutz representa o chassis #550-0064 que a Porsche tem no seu museu) e é reproduzida pela Maisto à escala 1:18. É um modelo que tem tanto de humilde como de interessante, apresentando no geral um molde correcto e, dentro da simplicidade do modelo original, representando-o bem. O interior está de modo geral correcto (o volante já tem a pega em madeira pintada - o que não ocorria nos Maistos mais antigos - mas faltam ainda os filtros de combustível na parede do habitáculo do lado do condutor) e sob o capot dianteiro encontra-se um representação decente do depósito (com as respectivas cintas de fixação, incorrectamente pintadas de preto e não cor de metal como as originais) e da bateria (que até tem um autocolante a replicar as indicações que algumas trazem); na traseira pode encontrar-se um simples mas no geral correcto motor boxer com pneu suplente e estojo de ferramentas (que esconde onde deviam estar as bobines de ignição), ambos fixos por agradavelmente pintadas cintas de fixação. É certo que podia ter um pouco mais de cor (e as molas das suspensões funcionais não estão na escala correcta nem montadas num configuração correcta) mas de modo geral tem bom aspecto, bem melhor que a unidade que se encontrava na primeira geração deste Maisto. No cômputo geral, trata-se dum minitura simples (e barata, não tem nada a ver com o Schuco, naturalmente) mas que pelo preço que custa é, em minha opinião, uma boa opção!

