Ford Mustang Shelby GT500E Fastback Eleanor - 2000 (Greenlight Collectibles)Após o final da II Guerra Mundial, os jovens soldados regressados do conflito na Europa vinham com ânimo redobrado e tal alavancou um enorme crescimento económico norte-americano. Um dos sectores da economia que foi levado na onda da euforia foi o sector automóvel, que emprestou de elementos bélicos muita inspiração de design. Mas houve algo mais que adveio da guerra na Europa: os pequenos desportivos.

O Mustang foi a proposta da Ford (seguida do aparecimento do Corvette, o compacto desportivo que a Chevrolet) para o crescente mercado americano pós-guerra que apreciava os pequenos roadsters desportivos por quais os americanos se haviam apaixonado aquando das suas "visitas" pelos territórios britânicos. Como tal, a seguir ao Ford Model T, foi o segundo modelo da marca da oval mais vendido de todos os tempos, inventando o famoso conceito de "pony car", compacto de capot longo e traseira curta, arrastando tantos outros fabricantes nacionais para a moda, como o Chevrolet Camaro, o AMC Javelin ou o Dodge Charger... e ainda se produz, embora já na 6ª geração.

Para quem não sabe, a plataforma da primeira geração não era de todo original: era o mesmo chassis do Ford Falcon. O nome também veio do estilista executivo, Pres Harris, que adorava o caça militar P-51 Mustang (que por sua vez tinha recebido o nome de uma raça de cavalos selvagens que hoje, embora escassamente, ainda correm pelas pradarias do norte do continente americano). Engraçado é que a Ford não pôde usar essa denominação na Alemanha pois aí a Krupp tinha já esse nome registado para um dos seus modelos de camiões... até 1978 a Ford vendia-o na Alemanha como T-5. O protótipo inicial montava centralmente um motor V4 dum Ford Taunus e tinha apenas 2 lugares, uma configuração que foi abandonada em favor do mais vendável 2+2 (o contemporâneo dois lugares Thunderbird estava a afundar-se nas tabelas de vendas) e o desenho de Joe Oros finalmente viu a luz do dia em Abril de 1964 na Feira Mundial de Nova Iorque.

A recepção do público foi no mínimo entusiasta e não tardou que o Mustang andasse pelas estradas norte-americanas nas versões descapotável, Coupe e Fastback, inicialmente propulsionado por um 6 em linha de 2785cc ou um V8 de 4260cc. Previsões iniciais indicavam 100.000 unidades vendidas no primeiro ano mas esse valor foi ultrapassado logo ao fim de 3 meses, com mais 318.000 vendidos no resto do ano, um record. Em Agosto do mesmo ano o V8 de viria a receber logo uma actualização de 4.3 para 4.7 litros de cilindrada, 4736cc mais precisamente (o famoso 289) com 210cv. Em 1967 recebeu um
restyling amplo que lhe conferiu um crescimento em todos os aspecto (embora não forçosamente mais potente) e que incluiu a inclusão pela primeira vez do “big block”. É acerca desta geração que vos quero falar mas dando um salto até ao ano 2000.

Jerry Bruckheimer decidiu produzir uma
remake do clássico filme de 1974, em que um grupo de larápios prepara o roubo de 48 automóveis culminando numa quase interminável perseguição a um Ford Mustang Sportsroof de 1971. Assim, com Nicolas Cage como actor principal no papel de Randall “Memphis” Raynes, o filme de 2000 (cujo argumentista é H.B. Halicki, o mesmo argumentista, realizador e actor principal do filme original de 1974, que havia vendido os direitos do filme à Disney em 1995), a história roda em redor dum aposentado ladrão de automóveis que se vê obrigado a roubar 50 automóveis raros para salvar a vida do irmão que tinha falhado de conseguir fazer o mesmo para um temível barão do submundo. Neste, tal como no filme original, a estrela é um Ford Mustang mas desta feita um Shelby GT500 de 1967 modificado, partilhando o nome de código “Eleanor”.

A produtora financiou então um projecto para a construção de 11 Eleanors no valor de $250.000 que iriam servir para uma miríade de situações, desde carros para as cenas de perseguição a outros para as cenas estáticas ou mesmo dois que foram destruídos na cena final do salto. O trabalho de desenho foi encomendado ao conceituado designer de
hot rods Steve Stanford que incluiu no design do modelo original elementos como um novo pára-choques dianteiro mais volumoso, novos saiotes laterais que integram os escapes (que à altura da filmagem do filme não eram funcionais), grelha redesenhada (proveniente duma Chevrolet Astro), novos faróis de nevoeiro, fechos rápidos no capot, novas entradas de ar laterais, spoiler traseiro integrado redesenhado e umas novas jantes Schmidt de 17”. O interior foi mantido essencialmente original mas neste sobressai a manete da caixa com o botão “Go Baby Go” para a injecção de óxido nitroso (cuja garrafa foi montada na bagageira mas que não era funcional em nenhum dos carros do filme), pedais de competição TCP, um novo e sobredimensionado taquímetro Sport Comp e roll-cage montada detrás dos bancos.

Debaixo do capot também se pode encontrar algum “trabalho de casa”: aí pode encontrar-se um V8 Ford Racing 351 de 5752cc com bloco em ferro fundido e cabeças em alumínio, biálbero com 4 válvulas por cilindro e alimentado por um carburador quádruplo Holley 700 CFM e distribuidor MSD que produz em redor de 385cv de potência e 511Nm de binário máximo que são transmitidos às rodas traseiras por um diferencial autoblocante Positraction através duma caixa manual de 4 velocidades. Para manter toda a potência no sítio, pneus Goodyear Eagle F1 forram as jantes Schmidt de 17” com design evocativo do AC Cobra contemporâneo e travões de disco ventilado, perfurado e ranhurado com pinças Wilwood de 4 pistões asseguram o poder de travagem.

A produção dos 11 ou 12 Shelby GT500E Fastback Eleanors (há fontes a citarem tanto um número como o outro) foi entregue à Cinema Vehicle Services de Ray Clarid que os construiu com especificações diferentes de acordo com a sua função no filme e dos quais apenas se conhece existirem hoje apenas 3. O certo é que este carro, sancionado por Carroll Shelby como comprova a assinatura na pala do sol do lado do pendura, se tornou num ícone talvez ainda maior que o modelo original que o originou e além destes originais vários kits e réplicas (mais ou menos autorizadas pelo produtor) foram sendo produzidas para colmatar a procura por ter “um Eleanor”.

A miniatura que vos apresento é a reprodução que a Greenlight Collectibles fez deste agora lendário
movie car à escala 1:18 e é apenas a 2ª que conheço, a seguir ao já conhecido Shelby Collectibles. À primeira vista, o molde parece ser rigorosamente o mesmo que o Shelby Collectibles e isso de facto não está muito longe da realidade: à primeira vista, não fosse o capot do Greenlight ter a “bossa” mais baixa e as jantes bicolores (o Shelby tinha-as todas cromadas), seria difícil distingui-los. O molde está de modo geral correcto embora eu ache que a dianteira do capot devia ser mais curvada para baixo, dando a ideia que a dianteira está sempre a “apontar para o céu”. O encaixe dos painéis também não é exemplar, encontrando-se por exemplo uma grande discrepância entre o spoiler na tampa da bagageira e o painel do flanco traseiro direito que o deveria completar. Outra coisa que salta à vista é a continuidade das faixas nos flancos que não é perfeita e o facto de as linhas não estarem completas até final dos painéis, nomeadamente na dianteira do capot. O molde das entradas de ar nos flancos também não é a melhor e os escapes são só pintados de preto como as grelhas, o que é uma pena. Já o conjunto jante-pneu tem muito bom aspecto e “dá no olho”, completado por um padrão de piso correcto com os Goodyear originais. O interior não está mau, com uma representação global conseguida sem deslumbrar, e é de salutar os bancos reclináveis, a roll-cage e o botão “Go Baby Go” na manete da caixa, mesmo que tal seja apenas uma pinta de tinta vermelha. Pena é a falta de alcatifa, embora tal tenha tentado ser reproduzido com uma textura mais áspera do fundo do habitáculo, assim como do tacómetro Sport Comp, este tablier foi claramente tirado dum modelo "standard" sem alterações. O motor também está completo e não era exigível muito mais neste aspecto, assim como o fundo do chassis, onde se nota algum esforço em incluir cor e elementos mecânicos visíveis. No geral, parece-me que o preço pedido pela peça é um pouco excessivo para o que oferece mas não deixa de ser uma peça vistosa e que dá gosto ver (e ter)!
