Bom, certamente já todos estavam a estranhar apresentar carros normais de há tanto tempo para cá! Para que não pensem que enlouqueci, fui raptado por extraterrestres ou que me raptaram para o Estado Islâmico e fizeram lavagem cerebral, cá vai mais um "ao meu gosto":
Peugeot Onyx - 2012 (Norev)Se há duas coisas que têm de há muito tempo para cá acompanhado a história da Peugeot é a competição e os protótipos. Antes do dealbar do século XX já se organizavam corridas de automóveis… e já nessas se encontravam Peugeots. É certo que nessa altura não havia distinção (nem a noção de que tal distinção poderia vir a haver) entre carros de estrada e de corrida mas se andava, corria-se! E também não foram precisos muitos anos até que os construtores descobrissem que a melhor forma de exporem as capacidades técnicas e estilísticas da marca passava pela produção de protótipos, que tanto eram baseados em modelos existentes e assim enalteciam o modelo que o cliente podia conduzir, como também podiam vislumbrar aquilo que poderia vir a ser o futuro do automóvel.

Talvez mais que a média dos construtores generalistas, a Peugeot sempre foi profícua em ambos os campos. O braço de competição (que desde 1981 e fundado por Jean Todt e Guy Fréquelin se chama Peugeot Sport) tem levado a Peugeot a inúmeras vitórias em disciplinas tão diversas como ralis (como os Mundiais e Nacionais de Ralis), raid TT (como o Dakar), endurance (WSC, FIA GT, Le Mans), turismos (BTCC, WTCC ou Stock Car V8 Championship), fórmulas (F1) ou provas de montanha (Pike’s Peak). Por sua vez, desde o especial 402 Andreau de 1936, a marca do leão também tem feito inúmeras mostras de capacidade técnica, estilística ou de puro marketing com os seus protótipos: em 1965 criou uma versão especial do 404 de forma a ser o primeiro recordista de velocidade como motor diesel (16.627km em 103 horas, registando a média record de 161,49km/h); em 1976 aparecia um estranho descapotável com carroçaria em plástico denominado 104 Peugette, como marketing para o novo modelo de acesso de gama 104. Nos anos 80 seria a primeira vez que efectivamente os dois mundos se juntavam: em 1984, após o anúncio da Peugeot na participação no Mundial de Ralis com o novo 205 Turbo 16 de Grupo B, via a luz do dia o insano Quasar, bilugar que partilhava a totalidade da mecânica do irmão de competição excepto que neste o 4 em linha de 1750cc tinha não um mas dois turbocompressores, permitindo extrair 600cv da unidade.

Dois anos transactos, veria a luz do dia aquele que é, na minha opinião, um dos mais fantásticos
concept cars de todos os tempos: o Proxima. Continuando o tema espacial do Quasar (para quem não sabe, Proxima de Centauro é a estrela mais próxima do Sistema Solar, a “apenas 4,27 anos-luz de distância), este novo superdesportivo usava agora uma plataforma de tracção integral (possivelmente também 205 Turbo 16) mas desta feita montava centralmente um V6 PRV de 2849cc com 2 turbos e 2 intercoolers retirado da parceria da Peugeot com a Welter Racing para Le Mans debitava nada menos que 600cv. Desta feita tanto estilisticamente como mecanicamente, e desculpem-me os puristas entre os quais eu me incluo, abafava essencialmente todos os superdesportivos da época. Até o F40 parecia fraco e
banal comparado com este Peugeot da era espacial (supostamente seria também mais rápido, podendo atingir os 348km/h)!

Saltando 26 anos (e outros protótipos notáveis como o Oxia, o Asphalte, o 607 Féline, o 907, o 607 Pescarolo, o 4002 ou o 908 RC), é chegada a altura de uma vez mais apresentar um novo protótipo, que para além de permitir uma espreitadela à futura linguagem de design dos carros de estrada, serve também de homenagem ao projecto 908 HDi que havia vindo a ser desenvolvido desde 2005 com objectivo de ganhar as 24h de Le Mans, o que finalmente conseguiu alcançar em 2009. Este usava um V12 a 100º de 5,5l HDi biturbo que produzia 730cv e 1200Nm de binário. A partir de 2011, os novos regulamentos tornaram o V12 obsoleto, forçando a que fosse trocado por um mais pequeno V8 de 3,7l biturbo Honeywell, que debitava menos cerca de 150cv que o antecessor, que esse ano não ganhou as 24h de Le Mans à Audi devido à quebra dum braço de suspensão meia hora antes do fim da corrida. No final dessa época, a Peugeot Sport seguiu a tendência geral e introduziu motores eléctricos e um sistema de recuperação de energia cinética no seu 908 mas, com os fracos resultados comerciais da Peugeot nesse ano, o projecto foi abortado.

Mas ainda assim não foi este o fim do projecto: no
caseiro Salão de Paris em Outubro de 2012, a Peugeot decide reutilizar pela ultima vez a base mecânica do 908 homenageando-o com o protótipo Onyx, baptizado com o nome duma variedade de quartzo de cor geralmente negra que em grego significa “unha”, pois segundo a mitologia destes as pedras seriam as unhas de Vénus cortadas pelo Cupido que caíam pela Terra. Isto dá uma ideia do conceito diferente deste novo e, para não variar, louco protótipo da Peugeot: a utilização de materiais o menos processado possível. A estrutura é produzida, como no 908, integralmente em carbono monolítico e consiste em apenas 12 peças, pesando apenas 100kg e é visível através da “bolha” (um elemento característico de boa parte dos protótipos Peugeot) em PMMA – PoliMetil MetAcrilato. Sobre esta mora uma aerodinâmica carroçaria em fibra de carbono e folha de cobre concebida (com um Cx de apenas 0,30) desenhada por Sandeep Bhambra que dispensa retrovisores - apenas tem dois estabilizadores horizontais nos flancos - e até limpa pára-brisas… mas inclui dois deflectores verticais na traseira, para canalizar o fluxo de ar entre os farolins e entre os quais se eleva o spoiler traseiro activo (e sob o qual está a entrada para o gerador que aquece os fluidos antes de ligar o motor) e um fundo carenado em fibra de carbono com dois túneis atrás das rodas. Um pormenor catita são as portas que, para abrir, separam a “pele” em cobre do resto do painel e move-se lateralmente alguns centímetros antes de rodar, ficando sobre a roda dianteira.

No interior, o conceito do uso de materiais minimamente processados levou à opção de fibra de carbono para o volante, vidro para a consola central, alumínio para os comandos, restos de feltro para o alcatifado do habitáculo (comprimido e esticado numa única peça) e pega do volante e “madeira de papel de jornal” para o tablier. Para este foi usado papel de jornal usado que foi comprimido num bloco e a partir do qual foi literalmente esculpido o tablier, dando a perfeita ilusão de que se trata de madeira, já que até forma o grão e nervuras típicas desta; no entanto, olhando mais de perto é possível ainda ver as letras impressas. Os bancos são integrados na estrutura de forma a dar aos ocupantes a sensação de estarem em unidade com o carro e de ainda assim este ser acolhedor e espaçoso, já que não tem tejadilho.

Debaixo da carroçaria, fixado ao chassis detrás dos bancos, mora o V8 HDi FAP com 3,7 litros com injecção directa de gasóleo de alta pressão e 2 turbocompressores Honeywell com os respectivos intercoolers de forma a obter uma potência máxima de 600cv, transmitidos às rodas traseiras através duma caixa sequencial longitudinal Ricardo de 6 velocidades (requerendo o uso da embraiagem) e, como no 908, com diferencial autoblocante. A potência é posta no solo através de massivos pneus Michelin Pilot Super Sport 345/30ZR20 (105Y) e controlada na dianteira por mais “comedidos” 275/30ZR20 na dianteira, juntamente com suspensões de duplos triângulos sobrepostos com amortecedores horizontais comandados por braço push-rod nos 4 cantos e travões de discos ventilados e perfurados em carbono com 380mm na dianteira e 355mm na traseira. A ajudar à festa está o sistema HYbrid4 que armazena a energia cinética da travagem num conjunto de baterias de iões de lítio para ser depois usada quando necessário por um motor eléctrico que contribui com mais 80cv, para um total de 680cv. O conjunto de 4,65m de comprimento, 2,20m de largura e 1,13m de altura apenas pesa 1100kg.

A miniatura que vos apresento é a única representação que conheço deste belo protótipo à escala 1:18, realizada pela Norev. Antes de mais, a minha maior mágoa em relação a este modelo: por muito bonito ou bem feito que esteja (e até está), é selado. É que não custava nada pelo menos abrir as portas (como, por exemplo, fizeram no CItroën GT), já nem falo num spoiler funcional! Posto isto, sinceramente é-me difícil ver como poderia ter ficado melhor. A pintura preto mate em oposição com o tom de cobre (que é pintado mas parece tão realista) resulta extraordinariamente como conjunto embora oculte algumas formas do protótipo, em particular na traseira. Os elementos a imitar carbono foram feitos em relevo mas, como temos encontrado nos mais recentes BBurago ou Maisto, até funcionam bastante bem, a “bolha” transparente tem todas as linhas de união dos painéis e, inclusive, os parafusos e anilhas de fixação à estrutura estão representados. Esta peça só falha no facto de não ser aberta nas entradas de ar para o motor, no topo.

Tanto na frente como na traseira encontram-se emblemas e
letterings em foto-incisão (embora nos de trás tenham sido decalcados em conjunto, o que contra a pintura mate da carroçaria se torna um bocado notório demais). Os faróis, farolins e escapes são essencialmente os únicos adornos da carroçaria e, em conjunto com a grelha, estão muito bem representados e têm um excelente aspecto. As jantes são possivelmente a parte menos excelente pois embora o molde esteja muito correcto, foram simplesmente pintadas de preto mate com as faces em alumínio, não se percebendo como nas originais os elementos em fibra de carbono. Os pneus têm proporções e recorte do piso correctos mas não têm quaisquer “escritos” nos flancos. O interior, embora limitado pelo facto de não ter aberturas, representa convincentemente o original com o volante muito realista e o interior com as cores e molde geral muito correctos, inclusive nos elementos a imitar vidro e alumínio; só os cintos integrados no molde dos bancos, simplesmente pintados de preto por cima, podiam estar melhores. No geral, e para quem como eu adora este protótipo, não fica mal servido pois, menor dos males, pelo menos não tem que pagar 300€ por uma carroçaria bonita, já que nem suspensão e muito menos direcção são funcionais… as rodas estão ligadas por um eixo comum e já é um pau!!

Desculpem os planos repetidos mas já sabem que uma peça destas não dá para "espremer" muito mas como tirei fotos em dois
spots, não quis descartá-las... mas o carro é tão fotogénico!!!