Cá vamos então a mais uma peça que a ser encontrada em algum sítio... tinha que ser na minha garagem!!
Renault Espace F1 - 1994 (OttOmobile)Hoje em dia, quando se pensa em monovolumes, as ideias que vêm à cabeça são pais com uma ranchada de putos para levar à escola ou passear pelos centros comerciais enquanto se tenta fazer as compras semanais. São formas práticas de acomodar pessoas e bagagens e o conceito está massificado entre os construtores… mas não foi sempre assim. Aliás, a ideia nasceu na década de 70 do século passado na mente de Fergus Pollock que, enquanto trabalhava na Chrysler, achava que um veículo com apenas um volume seria o conceito ideal para acomodar com espaço pessoas e bagagens e não apenas carga como acontecia nas carrinhas comerciais até então. Mas o percurso dessa ideia viria a ser algo longo e conturbado até se tornar realidade e, em última análise, o sucesso que é hoje. A empresa pioneira no projecto foi a Matra, afiliada da Simca e subsidiária da Chrysler em França, que aperfeiçoou o conceito com ajuda do designer grego Antonis Volanis. Mas em 1978 tanto a Simca como a Chrysler estavam em maus lençóis e acabaram por ser compradas pelo Grupo PSA e a Matra ver-se-ia em mãos sozinha com o projecto. Como a PSA achou que o projecto não teria sucesso, a Matra virou-se então para a Renault em 1982 que apostou no projecto e, passados dois anos, viria a dar origem à Renault Espace, amplamente considerada o primeiro monovolume do mundo.

Passados 10 anos, a Renault Espace era um sucesso de vendas e a Renault decidiu homenagear a parceria entre Matra e Renault comemorando o 10º aniversário com um protótipo muito especial que aliava o “filho do matrimónio” Espace com a celebração da vitória no Campeonato Mundial de F1 tanto de pilotos como de construtores no ano anterior. De facto, este era o 3º campeonato de construtores que a Williams ganhou desde que passou a usar motores Renault em 1989. Estes complementavam na perfeição os monolugares projectados por Adrian Newey e Patrick Head e na época de 1993 atingiam o pico de carga tecnológica que até e desde então seria encontrado em qualquer outro Fórmula 1: o FW15C incluía sistema anti-bloqueio de travagem ABS, controlo de tracção, telemetria, comandos “fly-by-wire”, direcção assistida, comando pneumático de válvulas, transmissão semi-automática com comandos no volante com modo totalmente automático (chegou inclusive a ser testada uma transmissão de variação contínua), o sistema
push to pass que levantava a traseira para reduzir a resistência aerodinâmica gerada pelo extractor e elevava em 300rpm o regime máximo para facilitar as ultrapassagens e a famosa – e controversa – suspensão pilotada. De facto, a carga tecnológica era de tal forma grande que a FIA decidiu para o ano seguinte banir vários desses sistemas por serem “ajudas à pilotagem”.

Assim, este novo projecto seria um “bolo de aniversário” cujas velas eram nada mais que cilindros e um chamariz perfeito para a introdução da terceira geração da Espace. O conceito era simples: agarrar na estrutura base da Espace II, retirar tudo o que eram componentes mecânicos e serrar a secção central para fixar directamente nesta a estrutura monocoque em fibra de carbono e Aramid do Williams-Renault FW15C que venceu o Campeonato Mundial de F1 de 1993, na qual era depois colocado o conjunto motopropulsor completo, que incluía o notável V10 Renault RS5b, caixa de velocidades e diferencial, incluindo toda a suspensão traseira. Assim se transformava um mundano monovolume de motor dianteiro de 4 cilindros e tracção dianteira num monstro de motor V10 central e tracção traseira. Mas as alterações não ficaram por aqui: da carroçaria original em fibra de vidro projetada por Thierry Metroz e Axel Breun pouco ficou intacto, essencialmente o capot, tejadilho, porta da mala e vidros, tudo mais são painéis em plástico reforçado a fibra de carbono realizados especialmente para a Espace F1, incluindo um gigantesco spoiler traseiro que deverá ajudar o foguete gaulês a manter tracção nas rodas traseiras. Os restantes painéis também foram retocados no sentido de conferir um ar mais agressivo e funcional à Espace (o V10 precisa respirar e arrefecer convenientemente para “sobreviver”) e melhorar a aerodinâmica do modelo, embora com um Cx final de 0,98 seja efectivamente pouco mais aerodinâmico que uma parede… Por dentro, uma
roll-cage integral em tubo de aço é essencial para manter a rigidez do conjunto e garantir protecção aos ocupantes em caso de acidente.

Por debaixo da agressiva carroçaria amarela, pululava um coração com
pedigree. O campeão V10 a 67º Renault RS5b ainda vinha da altura em que os motores soavam tão gloriosos quanto os carros que os montavam. O bloco biálbero introduziu o comando pneumático nas 40 válvulas e os engenheiros da Renault conseguiam extraír dos 3493cc de cilindrada entre 700 e 800cv de potência conforme afinação de corrida ou de qualificação. A unidade montada na Espace F1, que respirava entre os bancos e através da grelha dianteira, estava precisamente em afinação de qualificação, debitando os 800cv em redor das 15.000rpm e um binário máximo de 705Nm, que eram transmitidos às rodas traseiras através duma caixa semi-automática de 6 velocidades com comando sequencial através de botões montados no volante. A suspensão traseira de duplos triângulos sobrepostos com conjunto de molas helicoidais e amortecedores pneumáticos internos comandados por braços
push-rod era montada directamente no invólucro da caixa enquanto a dianteira, também de duplos triângulos, foi produzida especificamente para a Espace F1. Aos 4 cantos eram montados discos ventilados carbo-cerâmicos que conferiam uma capacidade de travagem só comparável com o irmão de competição, como demonstra o tempo de aceleração de imóvel aos 270km/h e de volta aos zero em menos de 600m. A aceleração não é menos impressionante, atingindo o conjunto de 1300kg os 100km/h em apenas 2,8 segundos, os 200km/h em 6,9 segundos e uma velocidade máxima, limitada pela aerodinâmica, de 312km/h.

A Renault produziu duas unidades da Espace F1: o chassis 001 era uma unidade completa mas estática que pouco mais fazia que acender as luzes e foi a que foi apresentada no Salão de Paris de 1994 (é distinguível pelas jantes fechadas, a frente mais estilizada e fechada com elementos cinzentos nos flancos e os 4 bancos em Alcantara creme) e o chassis 002, construído em 1995 de forma a ser totalmente funcional e fez várias aparições em Grandes Prémios e deu boleia a individualidades como Frank Williams ou vários jornalistas automóveis, com Alain Prost ou David Coulthard ao volante. Isto porque a Espace F1 tinha 4 bancos mas quando se tratava de condições reais de condução, os 2 bancos traseiros perturbavam o delicado equilíbrio do protótipo e a sua lotação ficava limitada ao piloto e o petrificado passageiro, que então era sujeito a acelerações laterais que rondavam os 1,5 a 2,0G, conferidos pelos 4 enormes pneus Michelin Pilot SX. Eric Bernard, ex-piloto F1 da Larousse e Ligier, teve a tarefa de desenvolver a Espace F1 e revelou que esta tem a tendência de funcionar melhor, em termos de aderência, quando curva em apenas 2 rodas!

A miniatura que vos apresento hoje representa precisamente a unidade totalmente funcional com o chassis 002 (as duas unidades encontram-se hoje no Museu da Matra) e foi fabricada pela OttOmobile, sendo o único fabricante a representar esta estranha mas extraordinária máquina. A primeira coisa que chama à atenção é a cor, num amarelo-torrado com tons dourados que sem dúvida chama à atenção, que é apresentada num tom acetinado que faz justiça ao acabamento do modelo original. O molde no geral está correcto (excepto o recorte das saídas de ar dos radiadores à frente dos guarda-lamas dianteiros que está verdadeiramente atroz) e é agradável a utilização de decalque a imitar carbono nos flancos da carroçaria, no spoiler e nas entradas de ar para os travões traseiros (montadas no tecto) e a sorte deste modelo é que não tem grelhas em si, vêm-se os radiadores directamente na dianteira e até estão porreiros. Os faróis não estão maus mas estão abaixo do que temos visto de outras representações da marca, as jantes têm muito bom aspecto mas não percebo porque pintaram uma porca vermelha e uma azul de cada lado (é suposto serem as azuis dum lado e as vermelhas doutro, para saberem qual o sentido nas quais devem ser apertadas), felizmente é algo que se resolve bem com a troca do lado nas rodas do eixo traseiro. Já os discos cerâmicos não são mais que peças metálicas coladas sobre a superfície da cuba da roda, não têm mau aspecto mas não estão correctos, assim como os pneus com piso de estrada e não
slicks. Mas o que me salta mais à vista tem a ver com o cuidado na montagem, não com a qualidade do acabamento mas de quem manuseou a miniatura: nunca vi uma miniatura com tantas dedadas no interior dos vidros como esta!!

Espreitando para o quase invisível interior, percebe-se que houve cuidado na reprodução, com o tablier em carbono, o volante com os comandos da caixa (que neste caso não vêm pintados de amarelo como no original) e as bacquets com cintos de segurança em tecido fixados à
roll-cage. Já a suspensão traseira mais não é que um relevo na peça de resina do fundo, com as molas pintadas à pressa em azul mas que ainda assim… são melhores que nada! O fundo é a mesma desilusão de sempre, se bem que até se deram ao trabalho de representar a chapa através da qual saem os tubos de escape, sem que no entanto tenha a cor de metal desejada.

A Espace F1 é um daqueles protótipos que povoou a minha imaginação desde que vi imagens dela pela primeira vez logo nas primeiras vezes que fui à internet na minha vida. Habituados a ver carrinhas banais pelas estradas e de repente tropeçar num monstro amarelo animado por um motor de F1 com 800cv… é de deixar qualquer um de cabeça à roda! Desde que comecei a colecionar miniaturas que volta e meia ocorria-me a ideia “será que ninguém se lembra de fazer a Espace F1 à escala??”e eis senão quando a OttO responde às minhas preces… mas sob a forma duma miniatura selada. Como sabem, eu tenho uma forte resistência intrínseca a modelos selados porque acabam por ir contra todo o intuito de coleccionar miniaturas: ter representações o mais correctas possível de modelos que não se consegue ter em tamanho real. Mesmo um protótipo como a Espace F1 abre portas, tampa da mala, tem direcção… funciona! Foi por isso que não a comprei logo quando saiu e quando, finalmente, me decidi que seria a única forma de ter este meu ícone de juventude, já não foi nada fácil de encontrar e só à segunda pois o inteligente que me vendeu a primeira achou que pô-la dentro duma caixa acrílica
à solta e enviá-la pelos correios era boa ideia… bom, o que interessa é que já cá mora e, embora não sendo o meu ideal de miniatura, não deixa de ter a mesma presença brutal do modelo original.

