Mercedes-Benz 600 Pullman Limousine - 1963 (Sun Star)Após o armistício, os Aliados tinham todo o interesse em que a indústria alemã se levantasse das cinzas, já que estavam agora a explorar directamente as mesmas como compensação de Guerra. Tal interesse, naturalmente, incluía a indústria automóvel e embora nos primeiros anos esta se baseasse na oferta de veículos baratos de comprar e manter, não demorou que a procura (e consequente oferta) de modelos de luxo aumentasse e que construtores como a Mercedes-Benz voltassem a oferecer
sedans de topo para os mais abastados. Assim, em 1951, a Mercedes-Benz introduzia o 300 (W186), também alcunhado de “Adenauer”, o nome do Chanceler da República Federal da Alemanha entre 1949 e 1963, durante qual mandato utilizou nada menos que 6 versões personalizadas do 300 (que incluíam Cabriolets, Sedans e Landaulettes). Este modelo era apontado para chefes de estado e dignitários, pelo que incluía opções como uma divisória em vidro, telefone móvel VHF, gravadores áudio e até a instalação de secretárias. Debaixo do capot morava um motor longitudinal de 6 cilindros em linha com árvore de cames simples e 2996 cc que produzia 115 cv e que viria a ser utilizado numa forma modificada (nomeadamente com um sistema de injecção mecânica Bosch) no lendário 300 SL.

O W186 era um modelo de
design conservador e viria a manter-se no activo até 1963, altura em que já se tornava obsoleto para a exigência crescente dos clientes da marca e marcou a introdução do último Mercedes “super-luxuoso” até à reintrodução da marca Maybach em 2002: o Mercedes-Benz 600 (W100). Apresentado no Salão de Frankfurt de 1963, este modelo apresentava uma linguagem de
design bem mais moderna mas ainda assim simples e sóbria e estava disponível em duas variantes: o sedan de 4 portas com distância entre-eixos de 3200 mm e apontado para quem desfruta da condução e a Pullman Limousine com distância entre-eixos de 3900 mm, que podia ser fornecido com 4 ou 6 portas em carroçaria Sedan ou Landaulet (um sedan descapotável apenas na parte da terceira e última fila de bancos), apontado para quem gosta de ser conduzido. Foram também produzidos 2 coupés num chassis encurtado em 220 mm em relação ao Sedan, como prenda para o engenheiro-chefe da Mercedes, Rudolf Ulenhaut, e para o chefe do Centro de Desenvolvimento e Pesquisa da Mercedes nos anos 50 e 60.

Para um automóvel de dimensões consideráveis (5,45 m de comprimento no Sedan e 6,24 m na Pullman Limousine) concebido para transportar importantes personalidades, era antes de mais importante proporcionar uma estrutura sólida. Para tal, a Mercedes-Benz recorreu a uma moderna estrutura monobloco em chapa de aço, na qual estavam instaladas suspensões de duplos triângulos sobrepostos na frente e eixo oscilante com braços radiais atrás, ambos com amortecedores pneumáticos ajustáveis, sistema auto-nivelante, molas de borracha e barra estabilizadora, que garantiam não só o conforto a bordo (é por muitos apelidado de “tapete voador”) mas um comportamento exemplar em qualquer piso. O sistema de auto-nivelamento da suspensão recorria a um circuito de alta pressão (18 bar) que pelo meio de 2 válvulas ajustava a altura ao solo até mais 5 cm e a dureza da suspensão em 2 modos.

Debaixo da carroçaria, o construtor de Estugarda fez questão de empregar engenharia de topo dos melhores engenheiros automóveis de então, nomeadamente a instalação de um sistema hidráulico de alta pressão (150 bar) que comandava uma miríade de equipamentos, nomeadamente os elevadores das janelas, o tecto de abrir (quando instalado), fecho centralizado das portas, abertura da bagageira e ajuste dos bancos, além de sistemas separados para a direcção assistida e servo-freio. Mas se por um lado este sistema tornava a actuação silenciosa e suave, por outro lado requeria cerca de 50 cv para funcionar, o que significava que o maior bloco produzido pela Mercedes, o M189 do 300, não era uma opção viável.

Assim, a Mercedes-Benz desenvolveu um novo V8 de raiz com mais do dobro da cilindrada do M189. Baptizado de M100, o novo V8 a 90º contava com um bloco em ferro fundido e cabeças em liga leve com árvore de cames à cabeça simples (comandadas por correntes duplas) que, com 6332 cc e alimentado por um moderno sistema de injecção mecânica sequencial Bosch produzia um total de 300 cv (dos quais apenas 250 eram utilizáveis) às 4000 rpm e, mais importante, 500 Nm disponíveis logo desde as 2800 rpm. Acoplada a esta encontrava-se uma caixa automática de 4 velocidades que transmitiam a potência às rodas… bem lá atrás. Posto isto, o 600 era um automóvel dinamicamente muito capaz, levando os 2600 kg de peso seco (que podia ir até 3050 kg carregado) do sedan “SWB” aos 100 km/h em cerca de 10 segundos e atingir uma velocidade máxima de 207 km/h (um pouco mais devagar em ambos na Pullman Limousine, cujo peso bruto pode atingir os 3340 kg). Por este motivo, a Mercedes-Benz decidiu dotar dos maiores discos de travão disponíveis na altura, com 291 mm e duas pinças na dianteira e 294,5 mm na traseira, com pinça simples, com servo-freio de duplo circuito hidráulico (separado para as rodas dianteiras e traseiras). Para manter tudo bem plantado na estrada, contava com pneus Supersport (6PR) 9.00H15 nos 4 cantos. O consumo também era considerável mas para um colosso de tamanha dimensão nem era demasiado exagerado: 24 l/100 km para o sedan e 26 l/100 km para a Pullman Limousine.

À imagem dos anteriores “Großer Mercedes”, os clientes que se mais se atraíam pelo seu luxo e imponência eram chefes de estado, magnatas e celebridades, onde se incluíam CocoChanel, Hugh Hefner, John Lennon (que também tinha uma limousine Rolls-Royce psicadélica), Jay Kay, Jau Lenno, Elvis Presley, Rowan Atkinson, os Papas Paulo VI e João Paulo II, o Rei Khalid da Arábia Saudita, o Presidente da Jugoslávia Josip Tito, o Imperador do Japão Hirohito, Fidel Castro, o Primeiro-Ministro e Presidente do Zimbabué Robert Mugabe, os Presidentes da Coreia do Norte Kim Il-sung, Kim Jong-il e Kim Jong-un, o ditador do Iraque Saddam Hussein, a corte do Xá do Irão Mohammad Reza Pahlavi (que inclusive tinha 3 Landaulets e 18 outros para a guarda nacional), o líder da revolução chinesa Mao-Tse Tung, o secretário-geral do Partido Comunista Chinês Deng Xiaoping, o ditador da R. D. Congo Mobutu Sese Seko, o Rei do Cambodja Norodom Sihanouk, o Presidente da Nicarágua Anastasio Somoza Debayle, o líder religioso Guru Maharaj Ji e até o infame traficante de droga Pablo Escobar.

A versão favorita e que proporcionava mais amenidades aos seus ocupantes era sem dúvida a longa Pullman Limousine, com 4 ou 6 portas. Com 6240 mm de comprimento e uma distância entre-eixos de 3900 mm, a versão de 4 portas (que aqui vos apresento) podia sentar confortavelmente 5 a 6 passageiros nos bancos de trás virados frente-a-frente enquanto a versão de 6 portas (chamada de Presidential) incluía 2 bancos adicionais desdobráveis para a frente; o habitáculo era separado dos lugares da frente por uma janela que podia ser fechada pelos passageiros para maior privacidade. Esta versão alongada estava ainda disponível na opção Landaulet que na versão de 4 portas tinha uma capota de lona amovível sobre o último banco e na de 6 portas esta podia ser alongada sobre as 4 portas de trás (chamada Presidential Roof), que como o nome indica, era um carro de parada para chefes de estado. Do total de 2677 Mercedes-Benz 600 produzidos entre 1963 e 1981, 2190 eram sedans, 304 Pullman Limousines de 4 portas, 126 Pullman Limousines Presidential de 6 portas, 33 Pullman Landaulets, 17 Pullman Presidential Landaulets de 6 portas e 9 Pullman Presidential Roof Landaulets com a capota longa.

Como referi, o modelo que vos apresento é a representação de um dos 304 Pullman Limousines, realizada pela SunStar à escala 1:18. A primeira impressão… impressiona! Realizado com proporções e molde bastante correctos, é uma miniatura que com 35 cm de comprimento não cabe em qualquer estante, sendo apenas rivalizada na minha colecção em tamanho com os Cadillac Eldorado Biarritz e 425D V16 Aerodynamic Coupe! Porém, ao analisar o modelo com maior cuidado percebe-se que esta peça, embora decente no cômputo global, tem os seus “calcanhares de Aquiles”. Antes de mais, o que me chamou mais à atenção foi a forma como as portas não fecham perfeitamente alinhadas com os restantes painéis, que num modelo tão comprido e de linhas tão rectas, acaba por chamar à atenção pois a fluidez destas linhas interrompe-se, o que dá a ideia de que foi acabado “às 3 pancadas”. Por outro lado, embora também não perfeitamente alinhados, os cromados estão direitinhos (o que me chamou mais à atenção foi mesmo o friso do tejadilho, que por ser tão grande, foi feito em 2 peças e a união a meio é por demais evidente. Exteriormente, não há muito mais a assinalar a não ser que os emblemas e
letterings são apenas pintados, a grelha não é perfurada (apenas pintada de preto) e tanto nos faróis como nos farolins os pontos de fixação das ópticas são evidentes e inestéticas. E podiam também ter tido um pouco mais de cuidado com as ponteiras de escape, são sólidas e apenas pintadas a preto nas extremidades… Tenho no entanto que salientar o emblema no capot, realizado em fotoincisão e que confere logo um ar mais “sério” à miniatura e ao conjunto jante-pneu de perfil branco, que confere um ar extra de classe. Um pormenor que tenho que chamar à atenção diz respeito à tampa da mala: na caixa menciona “bagageira com abertura” mas quando se chega lá… nada! Publicidade enganadora…

Ao abrir as portas da frente (com umas gigantescas e desnecessárias
dog’s legs), encontra-se um interior sóbrio de execução aceitável, com cor e textura a imitar cabedal até com bom aspecto (excepto a inestética marca de molde no rebordo do tablier) mas a imitação de madeira no tablier e adornos das portas por tampogravura, analisadas mais de perto, denotam demasiado grão para serem realistas; já o volante tem muito bom aspecto e impõe-se no habitáculo com o aro cromado para a buzina. O piso não é alcatifado e os pedais fazem parte do molde do mesmo, apenas estão pintados de preto, algo que não era difícil fazer melhor. As portas de trás já apresentam um sistema de dobradiças esteticamente mais agradável (não percebo porque não fizeram o mesmo nas portas da frente…) mas os vidros das portas, muito grossos, estão só encostados à moldura em vez de dentro desta, o que estraga o ar de qualidade visto por fora. No habitáculo traseiro, a separação está bem realizada e o lugar do meio da 2ª fila de bancos até inclui um intercomunicador e um frigorífico (que não abre) com o mesmo acabamento de madeira de qualidade duvidosa. Também aqui, nada de alcatifa. E não aconselho a olharem para o interior do tejadilho pois só mostra que os vidros são uma peça que vai de lado a lado, algo recorrente em miniaturas bem mais baratas… Debaixo do capot está um motor bastante detalhado e que, salvo alguns detalhes que foram claramente atalhados (como as caixas de fusíveis ou as abraçadeiras das condutas de admissão e afins), está verdadeiramente bom! É pena que depois, na parte de baixo do modelo, esse cuidado não tenha sido mantido pois não tem essencialmente qualquer detalhe e a suspensão traseira foi quase totalmente suprimida. Mas pronto, a alternativa custa quase 5x isto e, ainda assim, é uma miniatura competente para quem gosta deste tipo de “barcaças” mas não quer gastar uma fortuna nelas.
