Mercedes-Benz 540K Autobahnkurier - 1936 (KK-Scale)Desde o princípio dos anos 30, com a extinção dos 710/720 SSKL, que existia um hiato na gama da Mercedes no que dizia respeito à inclusão de um modelo desportivo. O SSKL era uma máquina infernal de competição, altamente exigente para o condutor / piloto, já que não fazia quaisquer compromissos... o que também significava que era um modelo pouco refinado e tecnicamente antiquado. Assim, em 1933 nascia o 380K, que se posicionava entre o 290 de 4 cilindros e o 770 de 8 cilindros, com o seu motor de 3,8 litros com compressor volumétrico tipo Roots que se activava quando acelerado a fundo.

No entanto o chassis era pesado e o motor pouco potente para o conjunto, defraudando as ambições desportivas do modelo, pelo que a vida deste foi curta. Ao fim do 2º ano de produção e após apenas 154 unidades produzidas, é mostrado no Salão de Berlim o seu sucessor, o 500! Estilisticamente era muito semelhante ao antecessor e até a plataforma era partilhada, com o pesado chassis de longarinas e travessas de perfil em “U” em aço prensado, suspensões independentes (duplos triângulos sobrepostos à frente e eixo oscilante de junta dupla atrás) e travões de tambor de comando hidráulico às 4 rodas. Debaixo do longo capot morava "a diferença": o ponto de partida era o mesmo bloco de ferro fundido do 380 mas a cilindrada foi aumentada para 5018 cc que respirava através de um único carburador Mercedes-Benz e, em opção no K (de "Kompressor"), ajudado por um compressor volumétrico tipo Roots que atirava a potência máxima do M 24 I dos 100 cv para os 160 cv. Para a transmissão estava disponível uma caixa manual de 4 velocidades com
overdrive em opção.

Para o 500 estavam disponíveis 3 comprimentos de chassis e 8 configurações diferentes de carroçaria. Os chassis eram o "A", o mais curto com distância entre-eixos de 2980 mm e sobre o qual eram produzidos os Spezial Roadster e Autobahnkourier, os "B" e "C" eram os mais longos, com distância entre-eixos de 3290 mm e sobre os quais eram produzidos os cabriolets de 2 portas (Cabriolet B), os cabriolets de 4 portas (Cabriolet C) e os Coupés e Limousines. Ao contrário de alguns construtores da época, para além de produzirem chassis "nus" para receber a carroçaria que o proprietário desejasse, a Mercedes-Benz também dispunha de uma série de carroçarias especiais que produzia nas suas fábricas da Sindelfingen.

No Salão de Paris de 1936 a Mercedes-Benz revelava o novo 540K, que contava agora com a versão M 24 II do pesado 8 cilindros em linha (com bloco e cabeça em ferro fundido) que via a sua cilindrada ampliada para 5401 cc. De resto contava com as mesmas 2 válvulas por cilindro à cabeça comandadas por ponteiros e balanceiros e era alimentado pelo mesmo carburador Mercedes-Benz de fluxo ascendente pressurizado e baixa taxa de compressão de 6,5:1 (a fraca qualidade dos combustíveis da altura a tal obrigava, para evitar detonação) que debitava agora 115 cv na versão atmosférica e 180 cv às 3400 rpm na versão com compressor volumétrico Roots, o qual apenas era activado quando o pedal era pisado a fundo (também podia ser activado manualmente) e não devia ser utilizado durante mais que 30 segundos de cada vez!

Mais importante que a potência debitada era mesmo o binário máximo: 432 Nm às 2200 rpm, que eram mais que bem-vindos para mover o monstro de mais de 2 toneladas. Acoplada ao 8 cilindros em linha estava a mesma caixa manual de 4 velocidades (com ou sem
overdrive que a Mercedes-Benz chamava de “5ª”) que transmitia a potência às estreitas rodas traseiras de 7.00 x 17” através dum diferencial convencional. Além disso, inspirados nos Flechas de Prata de competição, a Mercedes-Benz trocou a arquitectura de chassis com elementos tipo viga por uma configuração tubular, o que aligeirou consideravelmente o conjunto. Tal como o 500K, o 540K estava disponível em 3 opções de chassis e 8 opções de carroçaria, além das que podiam ser fabricadas a pedido pelo carroçador “da casa”, a Sindelfingen Karosserie.

Uma das carroçarias mais raras é, sem dúvida, o Autobahnkurier (ou “Estafeta da Auto-Estrada”), um coupé aerodinâmico que, como o nome sugere, foi originalmente desenvolvido para as então recém-construídas
Reichs-Autobahn, um dos cavalos de batalha do III Reich como meio de impulsionar a indústria e a mobilidade dentro do novo e expandido Império. Ainda assim, o mais irónico é que dos Autobahnkurier vendidos, nenhum deles foi parar às mãos de um alemão. Aquando da abertura do Salão de Berlim em Março de 1934, nenhum outro carro materializava melhor o optimismo que a indústria automóvel vivia na altura que o belo coupé aerodinâmico preto no stand da Mercedes-Benz, mesmo quando as mais recentes teorias do aerodinamismo começavam a ser postas em prática nos automóveis. O agressivo coupé, de longo capot, traseira descendente (a famosa “fastback”) e guarda-lamas cobertos, terá causado tal impressão que, reza a lenda, Ettore Bugatti terá visto o 500K Autobahnkurier e ficado de tal forma maravilhado que correu de volta a Molsheim para pôr o seu filho Jean a desenhar um modelo rival, o Aérolithe, que viria a evoluir a um dos mais fantásticos carros alguma vez produzidos, o Type 57 Atlantic. O curioso é que a Mercedes-Benz tinha vindo a ser relutante a aderir à nova tendência pois “divergia da reputação de estilo e qualidade da marca”, tanto que mesmo este novo design de Hermann Ahrens mantinha a tradicional grelha da Mercedes, ao invés do que aconteceria com o 540K Stromlinien Limousine.

Dos 3 540K Autobahnkuriers que a Mercedes-Benz afirma ter vendido, apenas de 2 se conhece o seu paradeiro: o primeiro, chassis #130898, foi uma prenda de Hitler ao Shah do Irão Mohammad Reza em 1935 que utilizava um chassis 500 e carroçaria em dois tons de verde mas que já montava o novo motor M 24 II com 5,4 litros mas em que (talvez a prever problemas derivados da aspiração de areia do deserto) o compressor Roots tinha apenas a caixa, sem incluir os rotores. O segundo (e supostamente o último), o qual a KK-Scale representa à escala de 1:18, foi o chassis #408336 (ordem n.º 288557), era pertença do bem-sucedido oftalmologista Dr. Prof. Ignacio Barraquer e viveu toda a sua vida em Espanha. Durante anos rumores correram acerca da proveniência do carro: havia histórias de que teria sido uma prenda dum oficial do Partido Nazi ou ministro do governo alemão por uma operação realizada com êxito, outras que teria sido uma oferta do próprio Adolf Hitler ou até que teria sido uma prenda dum príncipe árabe cuja visão terá sido salva pelo professor. Estes mitos e lendas foram desfeitos pelo filho do médico catalão, Joaquin Barraquer, que afirma que na realidade o pai trabalhou alguns anos na Alemanha e se terá apaixonado pelo belo coupé no Salão de Berlim, e encomendou o carro logo ali.

Assim que o recebeu, a 13 de Setembro de 1938 em Gibraltar, pegou na mulher e encetou uma épica viagem de automóvel partida de Espanha, que cruzou o Norte de África desde a Líbia, passando pelo cairo e acabando em Alexandria, no Egipto, onde terá embarcado o Autobahnkurier de volta para Barcelona. A longa e dura viagem não decorreu sem os seus percalços: a certo ponto, no meio do deserto da Líbia, a junta da cabeça cedeu. Sem hesitar, debaixo do sol escaldante do deserto, o cirurgião removeu a cabeça do enorme motor, substituiu a junta, ajustou o
timing das válvulas e seguiu caminho. A isto seguiram-se amortecedores partidos e pneus furados (a um dos quais o professor terá comentado “está a dançar um bocado…”), a sorte é que o Autobahnkurier traz 2 pneus suplentes na bagageira! Inúmeras peripécias passou o veloz Mercedes (podia atingir os 185 km/h e fazer o arranque dos 0-100 km/h em 19 segundos) até que começou a tornar-se difícil manter o carro, por falta de peças e de mecânicos que soubessem como trabalhar nestes carros. O Prof. Barraquer terá adquirido um 300S para uso diário e só quando viu que era impossível manter o 540K o terá oferecido ao genro, apenas para uns anos mais tarde o comprar de volta! Só em 2004 o notável automóvel deixou as mãos da família Barraquer e, através da Gooding & Company, encontrou nova casa nos Estados Unidos, onde foi alvo de um meticuloso restauro pela mão do mestre restaurador Paul Russell. Antes de ser mostrado no Pebble Beach Concours d’Elegance de 2006 ainda mudou de mãos mais uma vez, desta feita o coleccionador mexicano Arturo Keller, e ingressar na maior colecção privada de Mercedes do Mundo. Neste famoso concurso de elegância foi injustamente relegado para 2º plano pelo Daimler Double Six Roadster que ganhou o “Best in Show” (naquela que foi até hoje uma das mais contestadas votações de sempre), injustiça em parte minorada pela atribuição da Coppa d’Oro no Concorso d’Eleganza Villa d’Este em 2008, o prémio do melhor do certame por votação popular.

A miniatura que vos trago é uma representação do chassis #408336 pertença do Sr. Prof. Barraquer realizada pela recém-chegada marca chinesa KK-Scale. À primeira vista salta o molde do conjunto que, embora para minha infelicidade seja totalmente selado, foi realizado com grande correcção, quer em proporções quer nas formas dos diversos elementos que o constituem. A grelha, embora fechada, tem muito bom aspecto e a textura confere uma falsa noção de profundidade que funciona, os 3 faróis são fundos e é visível o reflector no fundo sem a utilização de inestéticos pinos de fixação. O emblema de radiador é em fotoincisão (embora o recorte seja bastante irregular) mas os mínimos sobre os guarda-lamas são apenas pintados sobre a peça cromada. Não é mau demais mas merecia melhor. Um pormenor que acho que devia ter sido mais cuidado são os frisos cromados dos guarda-lamas que mais não são que uma tira de plástico cromado colada, que ainda por cima começou a descolar enquanto estava a fazer a sessão fotográfica e vê-se que no caso do guarda-lamas dianteiro esquerdo nem está centrado com o mínimos. Os farolins também têm um molde correcto mas as lentes também não são mais que zonas pintadas de vermelho (que no carro real nem são vermelhas mas sim em plástico escurecido). As rodas, ao contrário do que tenho visto em outras reproduções desta marca, estão bem conseguidas com duas filas de raios em metal pintado (não têm a profundidade, por exemplo, das BBR mas ainda assim são aceitáveis para o preço da peça), uma porca de aperto central bicolor e os ornamentos cromados como presentes no original. Já o decalque com o emblema da Mercedes sobre as tampas dos guarda-lamas traseiros também deviam ter sido melhor centrados. Na traseira, a chapa da matrícula também devia ter sido incluída numa moldura transparente inserida no painel e não uma chapa colocada sobre a carroçaria. Mas o pormenor que a KK-Scale mais errou neste modelo foi mesmo o interior: enquanto o original é forrado num vistoso cabedal e alcatifa vermelhos, este vem pintado em creme. Até é bonito à vista (o volante está bem reproduzido e o tablier a imitar madeira tem muito bom aspecto) mas não é correcto. Alcatifa também nem vê-la. Por fim resta-me salientar que, ao contrário do que acontece com outras marcas bem mais caras, a KK-Scale fez algum esforço a reproduzir o chassis e alguns elementos mecânicos na parte inferior do carro, onde se pode ver o mecanismo da direcção que é funcional mas não tem qualquer ligação ao volante.
