E agora, como dizem os Monthy Python: algo totalmente diferente.
Messerschmitt KR200 - 1956 (Revell)A história do Messerschmitt KR (acrónimo para
Kabinenroller ou "scooter com cabine") teve origem em comum com muitos micro-carros dos anos 50: com o final da II Guerra Mundial, os recursos tanto dos consumidores como dos fabricantes era reduzida mas com a reconstrução económica e social do pós-guerra a procura por meios de transporte baratos e polivalentes disparou. Mas o caso da Messerschmitt (baptizada com o nome do seu engenheiro-chefe Wilhelm Emil Messerschmitt) ainda era diferente: como todos devemos saber, a Messerschmitt era até ao armistício construtora de aviões militares que constituíam a espinha dorsal da Luftwaffe nazi, nomeadamente com o caça Bf 109 ou o inovador Me 262, o primeiro avião operacional do mundo impulsionado a jacto. Acontece que com a rendição da Alemanha aos Aliados em 1945, a Messerschmitt foi proibida de construir aviões durante 10 anos e, de repente, o fabricante viu-se impedido de fabricar essencialmente a única coisa que sabia fazer. Foi então que, em 1952, o engenheiro aeronáutico Fritz Fend dirigiu-se à Messerschmitt com a ideia de produzir pequenos veículos motorizados baseados no conceito da sua carruagem para inválidos Fend Flitzer.

A ideia foi bem recebida pela casa de Ausburg e no ano seguinte iniciava-se a produção do KR175 (175 é referente à cilindrada do motor monocilíndrico que o movia), pela mão da então propositadamente criada Regensburger Stahl- und Metallbau GmbH para comercializar o veículo, muito embora com o nome e insígnia Messerschmitt. O veículo era, como o nome indica, de facto pouco mais que uma scooter com 3 rodas e uma cabine, claramente derivada dos conceitos aeronáuticos que o Sr. Fend aplicava nas suas aeronaves. Tinha apenas 2,81 m de comprimento e 1,21 m de largura e pesava 230 kg! O interior levava duas pessoas, uma à frente da outra em "tandem", o acesso ao habitáculo fazia-se mediante uma "bolha" que abria para o lado e, à frente do condutor, estava algo que não era nem um guiador de motorizada nem um volante; mais parecia uma manche dum avião (que comandava directamente a barra de direcção entre as rodas). As influencias aeronáuticas estavam um pouco por todo o lado e até se diz que as próprias "bolhas" eram feitas a partir de canópias de aviões desmantelados, restos do tempo de guerra. A opção de sentar os passageiros um à frente do outro em vez de lado-a-lado permitia alcançar a mínima resistência aerodinâmica enquanto permitia centralizar ao máximo o centro de gravidade do carro e o mais afastado possível das rodas, colocadas nos extremos, que assim permitia boas características dinâmicas ao veículo.

Dois anos passados, a Messerschmitt decide fazer um "upgrade" ao KR175 com a introdução do KR200 que aqui vos mostro. Desde logo as diferenças eram evidentes, com um uma cúpula redesenhada para maior eficiência aerodinâmica, cavas das rodas dianteiras abertas e pneus de maiores dimensões (4.00 x 8"). Debaixo do capot traseiro e à frente da roda traseira morava agora um motor de motociclo Fichtel & Sachs arrefecido a ar, turbinado, a 2 tempos que conseguia espremer dos seus 191 cc uns extraordinários (não, estou a brincar) 10 cv, que permitiam ao leve e aerodinâmico KR200 atingir os 105 km/h de velocidade máxima, ao mesmo tempo que permitia um comedido consumo de apenas 3,2 l/100 km. Qual Lupo 3L, qual quê... Acoplado a este motor, que movia a roda traseira através de corrente, estava uma caixa sequencial de 4 velocidades que tinha uma particularidade muito interessante: uma vez que não tinha marcha-atrás, este efeito era conseguido por desligar o motor e, ao empurrar a chave para dentro da ignição, e graças a dois conjuntos de contactos, efectivamente ligar o motor a rodar ao contrário. Isto levava a que fosse possível ter 4 velocidades para a frente e 4 velocidades para trás! A manete da caixa tinha ainda um selector secundário que permitia pôr em ponto-morto independentemente da mudança em que estivesse engatado. Os travões eram comandads por cabos (embora no KR200 já com pedal de travão) e as suspensões tinham amortecedores hidráulicos nas 3 rodas.

Com um preço de venda de apenas 2500 Marcos Alemães, o KR200 foi um sucesso instantâneo, já que apenas no 1º ano foram produzidas mais de 12.000 unidades e ao KR200 "base" juntar-se-ia em 1957 um modelo descapotável com capota de lona (Kabrio), o KR201 Roadster (sem molduras nas janelas) e uma opção Export para, como o nome indica, exportação, que incluía pintura de 2 tons, tampões das jantes pintados, interior totalmente forrado, aquecimento, um relógio e uma pala externa para o sol. Em 1955, por forma a provar a durabilidade do KR200, a Messerschmitt preparou um KR200 para bater o record de velocidade em 24 horas para veículos com menos de 250 cc. O carro do record "König der Roller" ("Rei das Scooters") tinha uma carroçaria aerodinâmica e apenas um lugar, o motor estava modificado e incluía duplicação dos comandos de embraiagem, acelerador e travagem em caso de algum dos cabos de partir. A tentativa decorrer entre 29 e 30 de Agosto em Hockenheim e durante as 24 horas bateu 22 records internacionais de velocidade na sua classe, incluindo o record de 24 horas que agora se cifra em 103 km/h.

Em 1956, um ano após a introdução do KR200 e coincidente com a entrada da Alemanha na NATO, a Messerschmitt voltou a ter autorização para produzir aviões e perdeu interesse no KR. Foi então que vendeu a fábrica de Regensburg a Fend que, em conjunto com o fornecedor de travões e rodas Valentin Knott formaram a Fahrzeug- und Maschinenbau GmbH Regensburg (FMR) que passaria a produzir o Messerschmitt KR até final da sua produção em 1964 após um total de 30.286 unidades terem rolado da fábrica. Nos últimos anos de produção tinha-se vindo a verificar uma redução considerável na procura de transporte básico e económico na Alemanha e um pouco por toda a Europa, em que se começou a procurar por veículos mais "universais" como alternativa a estes veículos com dimensões reduzidas e motorizações de motociclos, nomeadamente o Mini, o Carocha, o 2CV ou a 4L.

A miniatura que vos trago aqui hoje é um dos KR200 construídos já sob a alçada da FMR de Fend e Knott, reproduzida à escala 1:18 pela Revell numa peça com já mais de 20 anos. Antes de mais... epá, o Messerschmitt é mesmo pequeno! E com um pouco menos de 20 cm de comprimento, a Revell não se sentiu rogada em reproduzir esta tão pequena peça (um pouco como também fez com o congénere e contemporâneo - e igualmente minúsculo - Isetta) à escala correcta. No geral as proporções parecem estar correctas e, como até é apanágio da Revell, nota-se o esforço em tentar incluir na peça de baixo custo tantos elementos quanto possível dentro do orçamento (sendo, por vezes, necessário recorrer a atalhos), que incluem os dois retrovisores cromados, limpa pára-brisas único, pala para o sol, farolins e faróis com molduras cromadas (aqui, com os malogrados pontos de fixação demasiado óbvios), mas por exemplo os frisos cromados, as chapas de matrícula (aqui, de facto, representando matrícula de Regensburg) e os piscas laterais são apenas formas no molde a carroçaria pintados em consonância. A adição da grade para a bagagem é um detalhe bem vindo e as rodas, embora de tamanho errado (têm a inscrição "4.00 x 10" e não 4.00 x 8) não destoam do tamanho do carro e inclusive incluem tampões com imitação de raios, se bem que todos os KR200 que conheço com este tipo de tampão tinham os "raios" mais finos.

O interior é tão simples quanto pode ser e, mesmo assim, não foge ao original. Os dois bancos em tandem, o "volante" branco quase horizontal comanda, efectivamente, a barra de direcção de forma directa como o original, o tablier é simples e tem apenas 2 manómetros e alguns botões como o original, só se nota a falta da prateleira detrás do tablier (mas também não tenho a certeza que todos a tivessem). Como todos os Revell, o habitáculo não é alcatifado, apenas texturado para imitar a alcatifa. A "bolha" abre para o lado, tal como o original, e a armação das janelas é apenas pintada no molde da peça que forma os vidros e pára-brisas mas a inclusão da pala para o sol é um detalhe delicioso. Debaixo do capot traseiro (que só pode ser aberto com a bolha levantada) encontra-se o motor monocilíndrico Fichtel & Sachs representado duma forma digna mas sem qualquer cablagem associada. Pode também encontrar-se uma bateria à frente do motor (com um molde, no mínimo estranho) e sem cabos e a suspensão e transmissão também estão rude mas decentemente recriadas, sendo a suspensão não funcional. O pormenor do pneu suplente fixado no interior do capot era um pormenor por que não esperava, assim como o guarda-lamas pintado à cor da carroçaria.

No cômputo geral, é uma peça engraçada, muito simples, para quem gosta de microcarros ou, como eu, simplesmente carritos estranhos que acabam por ser marcos na história da indústria automóvel e que por isso valem muito!

